domingo, 30 de maio de 2010

Parte 2

Secalhar está na altura de eu crescer um bocado para perceber estas situações de adultos. Não passo de uma inútil.

A minha mãe continua ali deitada. Acho que nem lhe apetece levantar-se. Para que? Não lhe servia de nada. Secalhar devia ajudar-lhe.

"Não sejas estupida, só tens 7 anos" - dizia a minha consciencia.

E tinha razão. Ia ajudar em que? Secalhar é melhor ir para o meu quarto, e fechar-me. Passo por ela como se fosse um móvel. Nem olho para ela, vou a correr para o quarto e enfio-me na cama. Deixei-me dormir, durante a noite toda. Sim , tive pesadelos.

"Oh possas, outra vez não!" - pensava eu - "sou sempre a mesma coisa"

Tinha feito chichi na cama. Faço quase todos os dias, o que deixa o meu pai ainda mais irritado e com vontade de me bater. Inútil, inútil. Ouvi a porta de casa, senti um arrepio na espinha. Será ele? Saio do quarto e vou espreitar pelas escadas. Ufa, era só a minha mãe, a vir do pão. Um cheiro a pão quente espalha-se pela casa, mas rapidamente desaparece, com o cheiro a alcóol. O meu pai chegou.

"Faz-me uma tosta"- disse ele.

Até fiquei descançada, significava que não ia ao meu quarto.

"Agora não posso" - disse ela.

"Eu posso fazer.." - disse eu, com medo.

Silêncio.

"Rápido"

E eu fui.

sábado, 29 de maio de 2010

Parte 1

Oiço a porta do carro a abrir, e de seguida a fechar. Consigo ouvir os passos pesados, em direcção à porta. A chave entra na fechadura, e roda 3 vezes. Eu continuo escondida, a ver. Ele entra, e ela vai ter com ele para lhe arrumar o casaco. Ele dá-lhe um beijo nos lábios, mas ela vira a cara, com ar de chateada. Suspiro para ver o que acontece. Ele pega-lhe no braço, apertando-o com força.

"Não me voltes a virar a cara, estás a ouvir?"

"Sim" - diz ela, com um ar assustado.

Eu não entendia o que se passava, era demasiado nova. Sentia uma lágrima pelo o meu rosto. Tirei uma mão do chão para a limpar, o que me fez desiquilibrar, e cair, mostrando a minha presença aqueles dois seres.

"Tu? Mas o que é que tu estás aqui a fazer?"-disse ele.

"Eu?.. Nada.. estava a brincar."

"Sua burra, vai para o teu quarto!"

"Ela é tua filha, não lhe trates assim!"-dizia ela.

"Nunca me digas como lhe devo tratar!"

E começou a rotina. Vejo-o a levantar a mão para ela, de modo a lhe acertar mesmo em cheio na sua bochecha esquerda. Ela cai, a chorar. Porque isto? Ele volta a pegar no casaco e sai.

"Não esperes por mim."

Foi para aquele sitio onde se bebe. Aquele sitio mau, que lhe faz chegar alterado a casa. Que lhe faz ir ao meu quarto e bater-me, apenas porque sim. Um dia pergunto-lhe o porque disto. Só conseguia olhar para a minha mãe, com a face negra e a dizer "não aguento mais, eu não aguento mais".

Secalhar está na altura de eu crescer um bocado para perceber estas situações de adultos. Não passo de uma inútil.

Amo-te.

"Open my eyes
I realize
this is my perfect day"


Gostava que tivesses ao meu lado agora, na minha cama. Que os teus braços envolvessem o meu corpo, de modo a sentir o toque das tuas mãos na minha pele. Que me beijasses o rosto enquanto eu sentia a tua respiração, embalada no teu berço. Gostava que estivesses aqui para sussurrares ao meu ouvido "amo-te catarina", e eu adormecer ao teu lado, para depois acordar com um beijo teu. Seria uma noite em que iria dormir perfeitamente ao saber que estavas ao meu lado, a protejer-me. Fica comigo. Amo-te.

"Sabes o tamanho todo do universo ? O meu amor por ti é maior"

p.s. este texto foi dedicado a uma pessoa muito especial para mim , e essa pessoa sabe que está dedicado.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

o menino africano ?

O menino africano
Queria ter chuva
queria ter água
Para lhe apagar aquela mágoa
O menino de África.

O menino africano
certo dia acordou
olhou para o ceu cinzento
um pingo à sua cara chegou.

"Será água?"
interroga-se o menino africano
"Será que é agora que apago a tal mágoa?"
dizia o menino de África.

A felicidade espalhou-se
mas de repente desapareceu
pois outro menino africano
com falta de água morreu.

O menino africano
começou a chorar
e as suas lágrimas
resolveram apanhar.

"Não querias água?
Não tinha sede?
Apaga a tal mágoa
que tanto te prende"

"De que vale ter água
se não tenho o meu amigo
apago a minha antiga mágoa
mas o meu coração ficou perdido"