Oiço a porta do carro a abrir, e de seguida a fechar. Consigo ouvir os passos pesados, em direcção à porta. A chave entra na fechadura, e roda 3 vezes. Eu continuo escondida, a ver. Ele entra, e ela vai ter com ele para lhe arrumar o casaco. Ele dá-lhe um beijo nos lábios, mas ela vira a cara, com ar de chateada. Suspiro para ver o que acontece. Ele pega-lhe no braço, apertando-o com força.
"Não me voltes a virar a cara, estás a ouvir?"
"Sim" - diz ela, com um ar assustado.
Eu não entendia o que se passava, era demasiado nova. Sentia uma lágrima pelo o meu rosto. Tirei uma mão do chão para a limpar, o que me fez desiquilibrar, e cair, mostrando a minha presença aqueles dois seres.
"Tu? Mas o que é que tu estás aqui a fazer?"-disse ele.
"Eu?.. Nada.. estava a brincar."
"Sua burra, vai para o teu quarto!"
"Ela é tua filha, não lhe trates assim!"-dizia ela.
"Nunca me digas como lhe devo tratar!"
E começou a rotina. Vejo-o a levantar a mão para ela, de modo a lhe acertar mesmo em cheio na sua bochecha esquerda. Ela cai, a chorar. Porque isto? Ele volta a pegar no casaco e sai.
"Não esperes por mim."
Foi para aquele sitio onde se bebe. Aquele sitio mau, que lhe faz chegar alterado a casa. Que lhe faz ir ao meu quarto e bater-me, apenas porque sim. Um dia pergunto-lhe o porque disto. Só conseguia olhar para a minha mãe, com a face negra e a dizer "não aguento mais, eu não aguento mais".
Secalhar está na altura de eu crescer um bocado para perceber estas situações de adultos. Não passo de uma inútil.
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